Pequena História de Natal

A Grande Roda, bem no topo da ampla Lisboa redesenhada após o grande sismo de 1755, despoletou oportunidades de reflexão para a qual não estava, no momento, com disposição. Ladeando um dos mais icónicos jardins da capital, o Parque Eduardo VII, bancas com produtos de fabrico artesanal expunham a sua apelativa mercadoria. Decidiu seguir pela calçada da esquerda, ouviu os risos que pairavam juntos com os gritos de felicidade da pequenada formando um ambiente reconfortante que tão bem se reflectia nos rostos das pessoas com quem se cruzava. Sentiu verdade no aumento do prazer associado a partilha.

A pista de gelo com o ar mais frio demarcava o limite da subida, atrás dela mais bancas, mais risos e gritos de entusiasmo e a Aldeia do Pai Natal. Esta visão embora forte não conseguiu impedir a cavalgada da recordação, por muito que lhe quisesse resistir. Metodicamente os velhos tempos e a alegria sentida quando ia ver o circo ao coliseu mesmo na véspera de Natal começou paulatinamente a tomar forma.

Como o pensamento costuma ter longa rédea logo dali passou para os presépios , não os opulentos e majestosos de Machado de Castro, nem mesmo o do delicado barroco de António Ferreira, na Madre de Deus, com as suas preciosas imagens em tamanho quase natural de um realismo tão impressionante que é possível perceber a mesma mulher nas várias etapas da vida desde a infância a velhice não esquecendo a juventude e fase adulta. Um percurso da mulher num convento de reclusão de mulheres, em que umas e outras se misturavam na adoração ao Menino. Pensou, isso sim, nos presépios de figurinhas várias que se iam adicionando ano após ano para a mesma veneração do Menino, numa eterna reconstituição do presépio que Francisco de Assis construiu em 1223 para demonstrar aos componeses, o grande acontecimento.

Natal é nascimento, mas grande a imprecisão sobre a data do nascimento de Jesus, quase no solstício de inverno quando as trevas acordam para a luz numa data em que antigas civilizações marcavam a ligação da Terra aos Ceus venerando as árvores. E foi na Alemanha com Martinho Lutero em 1530 ou na Letónia em 1510 que a árvore entrou nas festividades cristâs embora em Portugal esta tenha aparecido pela mão do rei artista, D.Fernando que quis animar o palácio com as tradições germânicas da sua infância, decorando o pinheiro com velas, bolas e frutos.

Envolto no feitiço das emoções que lhe evocavam afectos familiares passados nem se apercebeu que a luz do fim dia se esvanecia em tons rosa misturando-se com as estrelas de luz colocadas no meio do relvado. Um gorducho Pai Natal de barbas brancas e fato vermelho assinalava a banca das farturas, bem igual ao pai natal criado pela Coca Cola nos anos 30 do século XX baseado no bispo turco do Seculo IV, São Nicolau, conhecido pela sua generosidade, pelo seu gosto de distribuir presentes aos pobres e pela sua afinidade aos mais pequenos

Na sua infância era o Menino que premiava com algumas lembranças quem se tinha portado bem durante o ano, um incentivo para as boas acções futuras. E era um regalo ver toda a miudagem a correr para a chaminé na expectativa de ver como fora presenteado o sapato, o maior que se tinha, deixado vazio e limpo na noite anterior, ou seja a da consoada.

Decidiu descer ao Rossio e beber um vinho quente tão em voga nesta quadra em terras nórdicas. As danças, o burburinho constante e o doce cheiro dos chocolates agitou de vez a superfície das águas do passado.

Suspirou, devia questionar o presente?  Seria o que foi um paraíso perdido?.

Não, o presente, embora apoiado no passado é o trampolim para o futuro, e com esta certeza misturou-se com as bailarinas de saias tribais africanas e sentiu genuinamente no seu intimo o espírito de Natal.

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2017-12-24T21:20:02+00:00